Ganesha,
a chave para o Autoconhecimento
O objetivo deste artigo é apontar o simbolismo de Ganesha,
o Deus do Conhecimento, dentro da Tradição Vêdica, ou, para ser mais exato, o
simbolismo de uma das formas nas quais o Senhor da Criação - que é todo
Conhecimento - pode ser invocado à luz de Advaita
Vedánta.
A palavra Vedánta significa "o
final dos Vedas", que é onde estão
os livros sobre o Autoconhecimento, nesse grande corpo de conhecimento que são
os Vedas, a base da cultura hindu e de
tantas outras.
Advaita significa "não-dual",
por ser este o conhecimento da identidade entre o indivíduo, o mundo e Deus.
A primeira parte deste artigo situa a mitologia dentro de uma busca que poderíamos
chamar de espiritual. A segunda desdobra a imagem de Ganesha.
Infinito interior
Existe uma ânsia pelo Infinito no íntimo de cada um. Mas só se pode desejar o
que se conhece. Assim, se uma pessoa deseja o Infinito, é por experienciá-lo
de alguma forma. De onde mais viria essa tão humana necessidade de crescimento
e constante superação dos próprios limites, senão do vislumbre de uma
Realidade Superior?
Entretanto, o que define a condição humana é justamente o discernimento da própria
limitação e o sentimento de insatisfação dela decorrente.
Analisando com adequada atenção e método, vamos tentar compreender melhor
esse sentimento.
Eu e Não-Eu
Tudo no mundo pode ser compreendido em termos de sujeito e objeto. Aquilo que
"eu sou" e tudo aquilo que o "eu" não é.
Para o conhecimento dos objetos, dispomos dos sentidos. Mas... e quando se trata
do sujeito, sujeito jamais tornado objeto?
Cada um sabe que existe, e disso não tem qualquer dúvida. Ainda assim, há uma
grande diferença entre o que penso e o que eu sou realmente. A visão, a audição,
o olfato, o paladar e o tato têm autoridade somente sobre seus correspondentes
objetos, como formas e cores para os olhos, sons para os ouvidos e assim por
diante. Para adquirir algum conhecimento sobre o eu que "sou Eu"
realmente, é preciso recorrer às Escrituras, através de um professor
qualificado.
Vedánta:
um meio de conhecimento
Vedánta é um conhecimento e uma
metodologia de ensino que desvela, através de um questionamento claro e
profundo, como essa Realidade Infinita - que, na Bhagavad Gítá, Krishna
chama de "Minha Natureza Superior" - aparece em nossa experiência diária,
misturada à personalidade, com seus gostos e aversões, suas oscilações de
humor e todas as responsabilidades que esta individualidade assume. Todo
sofrimento é fruto de uma confusão entre o Eu (Átman)
e o Não-Eu (Anátman). O sofrimento
é, então, um erro de interpretação, portanto ilegítimo. Assim, se o
problema da infelicidade deve-se à ignorância, a sua solução só pode ser o
conhecimento.
Intimidade à Totalidade
O Autoconhecimento na Tradição Vêdica envolve a visão de Íshvara, o Senhor, que é Infinito, Indivisível e desprovido de
uma forma específica. Ou seja, todas as formas são Suas formas.
Indivíduos se relacionam entre si. Mas além desses limites da vida em
sociedade, cada um tem um relacionamento peculiar com a Totalidade. Esse
relacionamento é constante e real, mesmo que não o reconheçamos. Somos parte
do Todo, criaturas perante a Criação. Mas como podemos nos relacionar com esse
Infinito e aparentemente inatingível Senhor da Criação?
Jñánam - conhecimento - é ver algo
como é na realidade. Ver uma coisa através de outra é chamado Upásana.
Literalmente, Upásana significa
"estar próximo" ao Senhor ou à Verdade. Se em meu processo de estudo
me encontro incapaz de compreender essa Realidade, recorro ao Senhor, que é
completo e puro, que possui todos os poderes, que é todo Conhecimento,
"vestindo-o" com o nome e a forma que o meu coração pedir.
Como auxílio aos aspirantes ao caminho do Autoconhecimento, a Verdade Suprema
das Upanishads (1) foi traduzida em atraentes personalidades divinas que organizam
e preenchem as necessidades emocionais dos estudantes, desenvolvendo-lhes o
poder de concentração e o intelecto.
Sendo sutil, a Verdade requer uma mente também sutil para ser compreendida. Então,
gradualmente a Unidade subjacente em toda a Criação torna-se clara e a mente
torna-se capaz de receber o mundo e a vida como um presente das Leis que formam
o corpo do Senhor. Assim, seja sob o nome e a forma de Ganesha
ou Krishna, Saraswati ou Shiva,
Lakshmi ou Kali, uma
montanha, um rio ou um touro branco, o Pai, a Mãe, ou, se você assim preferir,
as Leis que governam a Criação, se manifestam em resposta à sua invocação.
O simbolismo de Ganesha
Ganesha é o Deus do Conhecimento e o Senhor dos Obstáculos
do mundo material. Ele é tradicionalmente invocado antes de qualquer
empreendimento, pois é o protetor de tudo o que possa ser considerado
auspicioso.
Ganesha representa o sábio - o Homem
em Plenitude - e os meios da realização dessa plenitude. Sua figura encerra um
significado profundo, que para ser efetivo necessita ser desdobrado. Assim, a
grande e soberana cabeça de elefante - imensa para um corpo humano - indica sua
capacidade intelectual e a firme dedicação ao estudo das Escrituras. As
grandes orelhas indicam que esse Conhecimento é para ser escutado de um Mestre.
A presença de um Guru é fundamental em Vedánta.
Pois, como a visão que temos de nós é exatamente o oposto do que desvelam as
Escrituras, o sentido exato de cada palavra só poderá ser compreendido com o
auxílio de um Guru que pertença a essa linhagem de ensinamento mestre-discípulo.
Alguém para quem esse Conhecimento já tenha sido desvelado.
Após escutar, o estudante deve refletir sobre o ensinamento. Escutar (em sânscrito,
Shravanam) é o mais importante. A
reflexão e até mesmo a meditação são auxílios para a assimilação da lógica
interna do Conhecimento. Em sua reflexão, o estudante irá descobrir em si
mesmo uma crescente compaixão por todos os seres vivos. Deverá também dirigir
seu intelecto no sentido da correta discriminação entre o Ser Supremo e Puro (Brahman)
- que é o verdadeiro significado e o conteúdo da palavra "Eu" (Átman-Brahman) - e o perecível mundo material.
A tromba de Ganesha indica a perfeição
dessa capacidade discriminativa - Vivekashakti
-, pois com ela o elefante tanto colhe uma flor como derruba e carrega consigo
uma árvore. De forma semelhante, o Sábio lida com questões grandes e
pequenas, mundanas, espirituais ou íntimas com a mesma versatilidade e
destreza.
Ganesha tem na fronte o vibhuti
(2) e um pequeno tridente. Ele é o primeiro filho de Shiva
- o Senhor da Disciplina e da Aniquilação da ignorância - e de sua esposa Parvati
- a Deusa da Matéria. O Sábio tem "sempre em mente" o Ser Supremo, a
sua verdadeira natureza.
Usualmente representado com quatro braços, Ganesha
carrega em Sua mão superior direita uma machadinha, e na superior esquerda um
laço. Com a machadinha, Íshvara - na
forma de Vigneshvara, o Senhor dos
Obstáculos (3) - decepa os apegos
aos objetos como fontes de felicidade. Com o laço, Ele prende a atenção de
seus devotos na Verdade, a Realidade Infinita que é a Sua própria natureza.
A outra mão direita abençoa com prosperidade e destemor. Freqüentemente,
encontramos nessa mão um japamala
(rosário), mostrando claramente que essa prosperidade está na forma de um japa
- a disciplina da repetição de um mantra ou nome divino -, talvez a mais
eficaz das técnicas para a preparação da mente. Por último, a mão esquerda
inferior do Senhor oferece modaka, um
doce de leite e arroz que representa a satisfação e a plenitude advinda desse
caminho de disciplina e poesia que é o Autoconhecimento.
Ganesha é famoso por seu apetite.
Contam os Puranas (4)
que, certa vez, em uma festa oferecida no magnífico palácio de Kubera,
o Deus da Riqueza, Ganesha comeu
sozinho tudo o que havia sido preparado para o jantar. Comeu também tudo o que
havia nas despensas do palácio, pois ainda não estava satisfeito. Chegou mesmo
a comer os utensílios de cozinha e os enfeites da festa. Nada era o bastante,
pois ele continuava insatisfeito. Nesse momento, Shiva Lhe ofereceu um punhado de arroz tostado. Ganesha
come e imediatamente se satisfaz. Fazendo uma analogia, vemos que muitos de nós,
devido à ignorância, tentamos preencher a "medida de Infinito" que
cada um traz dentro de si através da aquisição e do desfrute de crescentes
quantidades de objetos e situações agradáveis. Porém, todo ganho material
envolve uma perda, e a soma de uma série de conquistas finitas jamais irá
produzir uma satisfação infinita. Apenas o próprio Infinito - Shiva
- irá satisfazer esse "apetite infinito".
Shiva aqui representa não só a
Realidade Suprema (Brahman), como também
o Guru - aquele que possui o
Conhecimento do Ser (Brahman-Vidya).
Grãos tocados pelo fogo são estéreis, incapazes de germinar. Da mesma forma,
aquele que oferece seus desejos e seu ego ao Fogo do Conhecimento não mais vê
os objetos como fonte de felicidade. O Sábio se move no mundo "feliz em si
mesmo, e por si mesmo".
A grande barriga do Senhor Ganesha
mostra sua capacidade prodigiosa de "digerir" as situações, sempre
crescendo e se engrandecendo com as experiências, sejam elas auspiciosas ou não.
Aos pés do Senhor, encontramos um ratinho. Mesmo sendo um animal muito voraz,
"freqüentemente roubando mais do que pode comer e estocando mais do que
consegue lembrar", o rato contempla a Imensa Presença do Glorioso Senhor
da Cabeça de Elefante. Esse rato é o ego e seus desejos, que não avança mais
sobre os objetos ao seu redor, pois adquiriu a visão de uma Realidade mais
Elevada.
Mantido há vários séculos pelo povo hindu, esse conhecimento é universal,
pertencendo à Humanidade e a cada um de nós. A Tradição não diz "o
hindu é Brahman", e sim
"você é Brahman". Vedánta oferece um determinado conhecimento acerca de você mesmo.
É a ignorância desse fato que torna você infeliz, um buscador.